A Educação e o Ser

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Esse é um texto autobiográfico sobre meu envolvimento com a pesquisa “Corpo, Arte e Natureza: metodologia de formação de professores de Educação Infantil – UNIRIO” no ano de 2015. Na foto parte do grupo de pesquisa FRESTAS.

Um pouco do que penso hoje sobre o último ano, que me faz lembrar de tantos outros anos e de anos que não passaram ainda

novembro 2015

Considero que o meu processo de formação como ser humano começou a se tornar consciente a partir do antigo segundo grau técnico. Na época com 14 anos tinha interesse em estudar jornalismo, mas a escola técnica da área de comunicação que existia era a de publicidade. A escola (atualmente extinta) funcionava em dois prédios caquéticos no centro da cidade do Rio de Janeiro, bem ali do lado do camelódromo. E lá fui eu com o apoio do meu pai e as lágrimas da minha mãe, que considerava aquela escola o fim do mundo. Era e não era. As instalações eram realmente péssimas, o ensino era especialmente fraco no que diz respeito as disciplinas do ensino médio, e a formação publicitária eu não sei até hoje se era boa, mas sei que rapidamente descobri que não queria passar a vida usando técnicas para convencer as pessoas a desejarem algo que não precisam para serem aceitas, e consequentemente felizes. Diante dessa primeira constatação a meu próprio respeito, já acho que essa escola valeu a pena. A outra coisa positiva dessa escola era o fato dela estar localizada no centro da cidade e receber alunos de todos os cantos do município e de outros municípios, isso era riquíssimo! E isso, creio eu, foi uma formação humana muito bacana para mim. Nunca fui bairrista, nunca fui de um lugar, sempre rodei bastante por aí, minha família está espalhada pelo estado, tenho familiares ricos, classe média de todas as alturas e também pobres. Então nunca estive numa bolha, numa completa ignorância das variedades de modos de vida que as pessoas levam. Mas ali, parece que isso se alicerçou mais firmemente. Uma variedade humana, cultural, de interesses, de origens tão grande, tão potente. Comecei a perceber o quão interessante é o ser humano.

O próximo passo foi entrar na Escola de Belas Artes da UFRJ. Outra janelona aberta ao novo. Além da riqueza humana, na universidade entrei em contato com a riqueza artística, com possibilidades de expressão do sentimento que se tornaram mais evidentes: desenho, pintura, poesia, música. Meu pai, meio brincando meio lamentando, dizia: “A culpa é minha de você se interessar por arte, pois quando você era pequena não tinha dinheiro pra te levar pro Tivoli Park então te levava pra museu e teatro. Deu nisso!”

Aos 19 anos foi dada a largada da exploração do mundo interno e externo. Mais um marco na minha história: viagem à Chapada dos Veadeiros – GO com dois amigos da faculdade. Pra resumir, minha experiência sensível mais marcante durante essa viagem foi virar a noite em silêncio olhando o céu. Estávamos jogando sinuca no único barzinho do vilarejo e em determinado momento achamos que estava movimentado e iluminado demais. Saímos caminhando pela estrada de terra, era lua nova, mas havia muita luz… das estrelas! A luz das estrelas refletida numas pedras brancas criava uma trilha muito convidativa. Seguimos, e quando já não havia nenhuma luz artificial que atrapalhasse a luz natural, sentamos a observar o céu. Nunca antes o universo tinha se despido pra nós daquela forma, nós três sentíamos e víamos uma mesma coisa. No começo a cada estrela cadente que passava fazíamos algum som de surpresa, eram tantas, tantas, tantas. Continuávamos estarrecidos e o som se transformou numa respiração profunda que gerava um pequeno movimento do tronco a cada vez que uma estrela bailava pra nós. Deitamos bem juntinhos um do outro para ficarmos aquecidos. E ali ficamos tendo uma aula de consciência universal, de dança cósmica, de pequenez e grandeza, do que é essencial ou não na vida. As estrelas nos ensinavam enquanto permanecíamos em completo silêncio. A manhã chegou, nos abraçamos agradecidos por tudo aquilo, e chamamos aquela experiência de “centrinho do mundo”.

A partir daquela noite foi desencadeado um processo de autoconhecimento, de busca pela essência. Eu decidi que nada iria me fazer desistir de ser feliz, de buscar inteireza, de ser uma com o universo. E acredito que essa firme decisão foi abrindo portas, janelas e trilhas para tudo que veio e virá.

Vou pular um monte de coisas que, como disse, são o desenrolar de uma vida de autodescobertas. Uma vez participei de uma vivência de indução de crise existencial. Era basicamente uma análise de seus hábitos, ações, meios onde circula, com o objetivo de descobrir os seus propósitos. Depois de um processo longo, tinha que chegar a três palavras que definissem meus objetivos (ao menos os que conseguia ter clareza naquele momento). Minhas palavras foram: Tapas, Santosha e Música. Na hora não me dei conta de quão profundo aquela análise ecoaria nos anos seguintes da minha vida. Tapas é uma palavra sânscrita que tem inúmeros e profundos significados e maneiras de compreender, mas que naquele momento para mim tinha mais a conotação de persistência. Santosha é o verdadeiro contentamento, aquele que vem da essência e não depende de fatores externos para estar presente a todo instante. E música, bom, música para mim naquele momento (e ainda hoje) pode ser um caminho direto para tocar o Ser, a essência, a verdade. Então que a palavra música naquele contexto pra mim era sinônimo de Satya, que é o conceito de Veracidade em pensamento, ação e palavras.

O que quero dizer com tudo isso e o que tudo isso tem a ver com formação estética (especialmente aqui no contexto da educação)? Quero dizer que o que me toca tem e sempre terá relação com aquilo que é verdadeiro em nós, aquilo que permanece, o Ser. Quero dizer que através de todo e qualquer caminho, percurso, ferramenta, estudo, que eu faço ou venha a fazer, o que estou querendo entender é como nos conectamos e permanecemos conectados com aquilo que gera a atenção em nós, com aquilo que joga luz nos objetos que vemos para que sejam vistos, projeta afeto naquilo e naqueles pelos quais somos afetados. Para mim essa força interna é o que nos mantém vivos, na verdade é a própria vida, e tudo que é externo é projeção ou manifestação desse núcleo! Por isso educação estética para mim é algo como uma limpeza. Como assim? É um processo pelo qual podemos tirar da frente nossas máscaras, preconceitos, imposições sociais, aparentes diferenças e etc, para conseguir perceber aquilo que é essencial em nós e nos outros. De forma que a educação estética não acumula coisas sobre mim, empilhando-as até me sufocar de teorias e obras de arte, inflando meu intelecto e me afastando das pessoas pela minha aparente superioridade. Mas ela deve usar ferramentas para limpar, desobstruir os sentidos, clarear a mente e afiar o intelecto para que seja desvelada a essência, onde quem eu sou não tem nada a ver com titulações ou demonstrações de conhecimentos, mas sim com estar presente, ser inteiro, ser feliz e tranquilo seja quais forem as circunstâncias.

Dentre os textos lidos, discutidos ou mesmo aqueles de passada de olhos, neste último ano, os autores que mais ecoaram em mim no sentido das ideias que expressei anteriormente foram Edgar Morin, João Duarte Jr. e Luciana Ostetto. Morin pois tem uma capacidade de relacionar tudo e todos com tudo e todos, bem como acredito que seja a vida: querendo ou não querendo uma imensa relação. Sua capacidade de perceber e explicitar em palavras as conexões entre cultura, alimentação e escola, por exemplo, me fascinaram. Duarte Jr me cativou pela clareza em academicamente questionar a produtividade acadêmica em detrimento do que é essencial no saber. E Ostetto porque ela é linda, hehehe. E também pela coragem em trazer o divino, o sagrado, o feminino para a universidade sem medo de ser feita de chacota. Acho de uma beleza e de uma importância ímpar esse movimento de sacralização do processo educativo, que hoje se mostra duro, pobre e ateu. Sobre isso gostaria de citar Swami Vivekananda, um monge hindu do início do séc. XX, que disse: “Ateu não é aquele que não acredita em Deus, ateu é aquele que não acredita em si mesmo!”

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