Educação e formação do ser humano na perspectiva de Swami Vivekananda

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Ana Poubel Canela

RESUMO

Este trabalho pretende apresentar a visão de Educação e Formação do Ser Humano sob a perspectiva do pensador Swami Vivekananda, bem como expor dois dos pilares dessa perspectiva: a concentração da mente e a fé em si mesmo. Para isso é usada como metodologia a pesquisa bibliográfica, visando trazer ao leitor uma noção o mais fidedigna possível dos elementos que compõem a pedagogia de Vivekananda, bem como apontar seus alicerces filosóficos e contexto sócio-cultural e político de sua origem.

Palavras-chave: Swami Vivekananda. Educação. Concentração.

INTRODUÇÃO

Calcutá estava em plena efervescência. Do final do séc. XIX ao início do séc. XX, esta parte da Índia vivia a Renascença Bengali, movimento cultural, político, intelectual e artístico que brindou o país com grandes pensadores, poetas, dramaturgos, cientistas, músicos, filósofos e educadores tais como Ram Mohan Roy, Iswar Chandra Vidyasagar, Rabindranath Tagore, Keshab Chandra Sen, Girish Chandra Gosh, Satyajit Roy, Kazi Nazrul Islam, Jagadish Chandra Bose e outros (1). Ao lado dessa riqueza cultural, a pobreza, a fome e a falta de acesso aos bens culturais assolavam a grande massa popular.

Nesse contexto nasce e cresce aquele que viraria um gigante nacional, Swami Vivekananda, que dedica sua vida a valorização dos seres humanos independente de casta, origem social ou desenvolvimento intelectual (Pani-Pattnaik, 2006).

Apresento aqui uma breve síntese de sua biografia, pensamento e obra, talvez o primeiro trabalho brasileiro sobre o tema, focando na contribuição de Vivekananda para a Educação como metodologia de desenvolvimento humano.

A metodologia usada no presente trabalho é a da pesquisa bibliográfica, e com vistas a preservar a exposição do pensamento do autor o mais fidedigna possível, peço licença para reproduzir as citações na língua em que foram escritas, para que o leitor capacitado na língua inglesa possa desfrutar do original, deixando a minha traduçãolivre para aqueles que não dispõem da língua inglesa nas notas de rodapé.

Através deste trabalho, pretendo trazer outros pontos de vista ao âmbito educacional, explorando um pouco o tão longínquo mundo oriental, trazendo à luz as Índias da qual pouco ou quase nada ouvimos falar durante toda a nossa formação estudantil, buscando perceber que há complexos sistemas de pensamento e organização social do outro lado do globo.

Acredito também que este trabalho possa abrir caminhos para que outros educadores se aventurem na pesquisa de sistemas de pensamento e educação diferentes dos que são abordados nas formações que temos disponíveis nos sistemas de ensino atualmente em nosso país.

1. Swami Vivekananda, curta e intensa vida dedicada ao próximo

Nascido numa próspera família de Calcutá – Índia, Narendranath Dutta (1863 – 1902), desde menino mostrava interesse pela vida espiritual e pelo conhecimento das artes e das ciências tanto do Oriente quanto do Ocidente. De sua mãe, Bhubaneswari Devi, herdou uma extensa e aprofundada formação nos épicos hindus, como Ramayana e Mahabharata; e de seu pai, Biswanath Dutta, grande influência no desenvolvimento de uma mente aberta, e um grande respeito pelas tradições nacionais (Pani-Pattnaik, 2006). Ainda novo, encontrou seu guru Sri Ramakrishna (2), tornando-se monge mais tarde e recebendo o nome de Swami Vivekananda, pelo qual se tornou conhecido mundialmente.

Swami Vivekananda, filósofo, professor e monge hindu, viveu boa parte de sua vida em Calcutá, então capital do Império Britânico, onde havia um movimento forte pela libertação da Índia das mãos do colonizador, bem como uma grande movimentação cultural, política e artística. Diante deste cenário, muitos intelectuais e estudantes indianos, que tiveram em sua formação grande influência ocidental – Narendranath foi um deles – se sentiam impelidos a excluir e rebaixar suas próprias tradições, filosofias e estruturas sociais. Porém ao mesmo tempo, a grande massa dos indianos passava por sérias dificuldades e privações de necessidades básicas, oprimidas pelo Império, desprezadas em sua própria terra natal.

Após a morte de seu guru, Vivekananda passa a viajar por seu país exaustivamente para ver e viver as condições em que se encontrava a Índia Britânica. Peregrinou do extremo sul ao extremo norte de seu país para constatar que os anos de domínio colonizador haviam devastado seu povo física, moral e intelectualmente.

É nesse contexto que Swami Vivekananda, na intenção de reerguer seus conterrâneos e reafirmar a profundidade do conhecimento milenar hindu, viaja pela primeira vez aos Estados Unidos da América para representar o hinduísmo no Parlamento das Religiões Mundiais, realizado em Chicago no ano de 1893. Sua participação no evento foi um grande sucesso de forma que Vivekananda fora convidado para inúmeras palestras em todo o país.

Durante esta estadia nos EUA e consequentes viagens à Europa, Vivekananda se tornou uma figura central na introdução e propagação das filosofias hindus, em especial o Yoga e o Vedanta, pelo Ocidente. Mas o ponto central de interesse de Vivekananda durante suas viagens era o de encontrar apoiadores para seu projeto principal que era o de desenvolver a educação das massas indianas, e em especial a educação das mulheres indianas. “Filhas devem ser incentivadas e educadas com o mesmo cuidado e atenção que os filhos”, resgata Swami Vivekananda (apud Avinashilingam, 2007, p.57) um dos versos do Código de Manu (3) (Manu Smriti), texto desenvolvido entre II a.C. e II d.C. e que organiza um conjunto de regras sociais dos povos indianos. E Vivekananda complementa: “Women must be put in a position to solve their own problems in their own way. Our Indian women are as capable of doing it as any in the world” (apud Avinashilingam, 2007, p.57) (4)

Numa de suas cartas enviadas dos EUA para um de seus amigos do sul da Índia, Vivekananda expressa suas percepções e intenções:

See the Raja of Ramnad and others from time to time and urge them tosympathise with the masses of India. Tell them how they are standing on theneck of the poor, and that they are not fit to be called men if they do not try toraise them up. (…) A railway porter here is better educated than many of youryoung men and most of your princes. Every American woman has far bettereducation than can be conceived of by the majority of Hindu women. Whycannot we have the same education? We must. (5)(VIVEKANANDA, 2003, vol.5, p.23)

Vivekananda tinha um excelente senso de observação e uma mente aberta para o novo, e a partir daí criava sínteses e propostas de evolução. Uma de suas contribuições foi a da harmonia entre o Ocidente e o Oriente que buscou difundir. Ao longo de sua vida buscou expandir pelo Ocidente o conhecimento espiritual profundo trazido de sua terra, e para o Oriente levou as ideias de desenvolvimento material e tecnológico que encontrou no mundo ocidental, advogando o equilíbrio entre esses dois pólos nas sociedades.

De volta à Índia em 1897, Vivekananda funda a Ramakrishna Mission, instituição dedicada ao serviço social. Pani e Pattnaik (2006) nos apontam alguns dos objetivos dessa instituição, que segue até os dias de hoje trabalhando com base nos fundamentos para os quais foi criada:

Promover o estudo das artes, das ciências e das indústrias; treinar professores em todos os ramos do conhecimento acima mencionados e capacitá-los a alcançar as massas; para levar o trabalho educativo entre as massas; para estabelecer, manter, continuar e auxiliar escolas, faculdades, orfanatos, oficinas, laboratórios, hospitais, dispensários, casas para enfermos, inválidos e afligidos, trabalho de alívio de fome e outras obras educativas e de caridade e instituições de natureza semelhante. (PANI-PATTNAIK, 2006, p.51)

Vivekananda segue disseminando tais ideais e construindo as bases para a realização dos mesmos até o final de seus dias, aos 39 anos de idade. Como um cometa, passa pela vida intensa e vividamente, dedicando-se ao serviço ao próximo e deixando um legado pelo qual é ainda hoje louvado e homenageado em toda Índia.

Para a instituição que criara, explicita sua missão em uma única frase-lema retirada do Rig Veda, antiga escritura hindu: Atmano mokshartham jagat hitaya cha, que significa, “Pela sua própria libertação e pelo bem-estar de todos no mundo”.

2. A visão de Educação de Swami Vivekananda

“Education is the manifestation of the perfection already in man” (6).

É assim que Swami Vivekananda começa seus escritos sobre Educação no livro homônimo compilado por Avinashilingam (2007). Defende que todo conhecimento brota de dentro do ser humano e que nada nem ninguém externo pode lhe ensinar coisa alguma. Segundo ele, o processo da Educação é um processo de ação negativa e não positiva, ou seja, tem a função de retirar a cobertura da mente do aprendiz para que ele percebatodo o conhecimento que está dentro de si. E não é função do educador enxertar informações de fora para dentro e entupir as mentes dos educandos de dados, a fim de que eles pensem que ter informações é possuir conhecimento. Vivekananda diz que todo conhecimento está latente na mente humana, e a função da Educação e do educador, seja ele pai, mãe ou professor, consiste em auxiliar o aprendiz a retirar aquilo que cobre a sua mente, a sua visão, para que ele descubra todo o universo de conhecimento que reside em si e o traga à tona:

You cannot teach a child any more than you can grow a plant. The plantdevelops its own nature. The child also teaches itself. But you can help it to goforward in its own way. (…) You can take away the obstacles, and knowledgecomes out of its own nature. (…) The teacher spoils everything by thinking thathe is teaching. Within man is all knowledge, and it requires only an awakening,and that much is the work of the teacher. We have only to do so much for theboys that they may learn to apply their own intellect to the proper use of theirhands, legs, ears and eyes. (VIVEKANANDA, 2003, vol.5, p.410) (7)

All knowledge that the world has ever received comes from the mind; the infinitelibrary of the universe is in your own mind. The external world is simply thesuggestion, the occasion, which sets you to study your own mind. The falling ofan apple gave the suggestion to Newton, and he studied his own mind. Herearranged all the previous links of thought in his mind and discovered a newlink among them, which we call the law of gravitation. It is not in the apple nor inanything in the centre of the earth. (VIVEKANANDA, 2013, vol.1, p.50) (8)

E o autor não se restringe a enfatizar o enorme manancial que é mente humana, mas também nos adverte que para que esse potencial possa florescer é necessário tanto criar um ambiente favorável, quanto descartar as estruturas que criam obstáculos à essa meta:

To advance towards freedom, physical, mental and spiritual, and help others todo so is the supreme prize of man. Those social rules, which stand in the way ofthe unfoldment of this freedom, are injurious, and steps should be taken todestroy them speedily. Those institutions should be encouraged by which menadvance in the path of freedom… (VIVEKANANDA, 2003, vol.5, p.147) (9)

Vivekananda acredita que professores e responsáveis devem estimular a criança com palavras gentis, acreditando em seu potencial, para que ela se desenvolva pela sua própria natureza. Diferentemente de tentar moldá-la, os educadores deveriam dar-lhe ferramentas para que descubra o seu próprio caminho e sua própria maneira de trilhar este caminho, a fim de desenvolver-se por seu próprio esforço e conhecimento interno. Aqui está um elemento bastante simples da pedagogia de Vivekananda mas que por vezes é negligenciado no cotidiano da escola, o que comumente chamamos de reforço positivo. Pensando na obra de Vivekananda, arrisco-me a dizer que este reforço positivo do qual fala o autor, vem de uma compreensão profunda a respeito da força de conhecimento que cada indivíduo (mesmo criança) carrega em si mesmo. Não é uma maneira de “passar a mão na cabeça” ou fazer a vida parecer mais fácil do que é; mas sim um suporte e um estímulo: “vai, você é capaz, você vai ver!”. Esse tom positivo na educação pode ser bastante revelador das potencialidades dos educandos na visão deste autor. Porém, nesse tipo de abordagem educativa, é preciso que sejam observadas as necessidades de cada indivíduo, para que se escolha a forma certa de estimulá-lo, conforme suas tendências e afinidades naturais. O educador nessa visão, deve ter em mente que ele não irá ensinar nada a ninguém, que ele não deve se sentir o detentor do conhecimento. Mas sua atitude deve ser a de impulsionar cada um para frente do ponto em que está. A forma de fazer isso deve ser modificada de acordo com o que cada aprendiz lhe apresenta em cada momento. É, portanto, fundamental umagrande disposição e generosidade por parte de todos os envolvidos no processo educativo.

The teacher must throw his whole force into the tendency of the taught. Without real sympathy we can never teach well. Do not try to disturb the faith of any man. If you can, give him something better, but do not destroy what he has. The true teacher is he who can convert himself, as it were, into a thousand person sat a moment ́s notice. The true teacher is he who can immediately come downto the level of the student, and transfer his soul to the student ́s soul and seethrough and understand through his mind. Such a teacher can really teach andnone else. (VIVEKANANDA, 2003, vol.7, p.99) (10)

E apesar de não ser crítico ao sistema educacional ocidental, Vivekananda questiona a adequação deste modelo para a educação indiana, defendendo que “(…) every nation must develop a system of education based on her own nature, history and civilization” (11) (apud Pani-Pattnaik, 2006, p.68). E critica a situação da Educação na Índia enquanto colônia britânica:

What can you expect under foreign rule? The foreign conqueror is not there todo good to us; he wants his money. (…) So these educational institutions offoreigners are simply to get a lot of useful, practical slaves for a little money —to turn out a host of clerks, postmasters, telegraph operators, and so on. Thereit is. (VIVEKANANDA, 2003, vol. 8, p. 69) (12)

Acredita que os objetivos da educação devem ser, prioritariamente, formar seres humanos capazes de alcançar sua independência material, emocional e psíquica; construir um bom caráter como indivíduo; auxiliar na formação da sociedade como um todo, visando ao bem e à evolução de todos os seres humanos, como indivíduos e como membros de uma coletividade.

3. Concentração da mente como método fundamental

Trago aqui dois pontos que chamam especial atenção na pedagogia exposta por Swami Vivekananda: 1) a concentração da mente; e 2) a fé em si mesmo. É importante enfatizar que o autor não cria nada novo, não levanta a bandeira de uma descoberta inédita. Como ele mesmo aponta diversas vezes, relembra o conhecimento ancestral indiano, baseando-se nos textos antigos do Yoga e do Vedanta, dois dos seis sistemas filosóficos ortodoxos hindus (13), para trazer luz ao âmbito educacional de sua época.

A concentração da mente é tema especialmente desenvolvido pelo sistema Raja Yoga que tem os Yoga Sutras de Patañjali como seu principal texto. Nele, Patañjali declara que apenas a mente concentrada é capaz de obter e reter o conhecimento correto dos objetos, internos ou externos, e define este estado de concentração como um fluxo ininterrupto de conhecimento a respeito do objeto escolhido para ser conhecido em profundidade. (14) Nos estágios da mente não concentrada, ela pode se encontrar completamente dispersa, torpe ou inconstante, o que impede-a de ter a clareza necessária para o desenvolvimento do conhecimento. É com base nesse entendimento que Vivekananda afirma a concentração da mente como principal método de obtenção do conhecimento. É especialmente interessante observar que o autor viveu entre o final do século XIX e o início do século XX, num período que hoje poderíamos comumente pensar como menos dispersivo do que os dias atuais com toda a gama de redes sociais e aparatos teconógicos com os quais estamos cercados o tempo todo.

There is only one method by which to attain knowledge, that which is calledconcentration. The very essence of education is concentration of mind. (…) Theastronomer concentrates the powers of his mind and brings them into onefocus; and he throws them on to objects through his telescope; and stars andsystems roll forward and give up their secrets to him. So it is in every case: withthe professor in his chair, the student with his book, with every man who isworking to know. (VIVEKANANDA, 2013, vol.1, p.148)(15)

Pensando nesse apontamento do autor, me pergunto: o excesso de informação e estímulos a que somos submetidos hoje nos faz mais distraídos e menos concentrados; ou é da natureza da própria mente humana não treinada no método de concentração dispersar-se com facilidade? Vivekananda responde:

In the present state of our body we are much distracted, and the mind isfrittering away its energies upon hundreds things. As soon as I try to call on mythoughts and concentrate my mind upon any one object of knowledge,thousands of undesired impulses rush into the brain, thousands of thoughtsrush into the mind and disturb it. (VIVEKANANDA, 2003, vol.2, p.391)(16)

E reconhecendo a tendência dispersiva da mente, Vivekananda advoga a necessidade de primeiramente desenvolver o poder sobre a própria mente, antes de bombardeá-la com fatos e informações: “The present system of education is all wrong. The mind is crammed with facts before it knows how to think” (apud Pani & Pattnaik,2006, p. 70)(17)

Outro ponto central da pedagogia de Vivekananda é o conceito de Śraddhā. Śraddhā é uma palavra sânscrita que carrega muito significado, mas que comumente é traduzida por fé. Vivekananda enfatiza a necessidade de ter fé em si mesmo para se desenvolver a capacidade de realizar qualquer coisa que o ser humano queira, e diz que toda degeneração individual ou coletiva nasce do pensamento contrário a esta confiança em si mesmo:

I beg you to understand this one fact, no good comes out of the man who dayand night thinks he is nobody. If a man day and night thinks that he ismiserable, low and nothing, nothing he becomes. If you say “I am, I am”, soshall you be. (…)This faith in themselves was in the heart of our ancestors, thisfaith in themselves was the motive power that pushed them forward in themarch of civilization. If there has been degeneration, if there has been defect,you will find that degeneration to have started on the day our people lost thisfaith in themselves. (VIVEKANANDA, 2003, vol.3, p.376)(18)

Resgatando o conceito de Śraddhā através de sua pedagogia, o autor mais uma vez toma como base a própria filosofia e psicologia ancestral de seu país, e na prática de valorizar a sua cultura, exerce o próprio conceito o qual defende. Alimenta culturalmente o povo indiano não com alimento importado, mas com o alimento que esteve sempre em seu quintal, mas que tinha sido desvalorizado. Ao celebrar o saber de seu país, incute força em seus conterrâneos que se sentiam diminuídos pelos anos de colonização e miséria a que estavam sendo submetidos.

O autor não descansa um só instante na tentativa de apontar a força de cada indivíduo que lhe cruza o caminho. Defende que somos todos perfeitos, fortes e puros, e que por vezes a lente que enxerga tal perfeição está embaçada. Então toda a sua obra consiste em criar meios para limpar esta lente, que é a própria mente, para que se veja com clareza a verdade sobre si mesmo. E como parâmetro para testar a verdade e a validade dos métodos, filosofias, pedagogias, professores e religiões, Vivekananda sugere um teste simples:

And here is the test of truth – anything that makes you weak, physically,intellectually and spiritually, reject as poison; There is no life in it, it cannot betrue. Truth is strengthening. Truth is purity, truth is all knowledge; truth must bestrengthening, must be enlightening, must be invigorating. (VIVEKANANDA,2003, vol.3, p.224,225)(19)

Então, podemos ver que a pedagogia de Vivekananda é simples: fortalecer o indivíduo física, intelectual e espiritualmente; dar-lhe ferramentas para concentrar a sua mente; e então disponibilizar a ele a gama de conhecimentos construídos pela sociedade, para que de acordo com sua natureza desenvolva-se para fins de conhecer-se a si mesmo, integrar-se na sociedade e contribuir para o crescimento da mesma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste presente trabalho, me limito a expor os ideais pedagógicos de Swami Vivekananda, apresentando sua biografia, influências e contexto de onde fala o autor. Penso ser enriquecedor para nós educadores brasileiros, de um país que fora também colonizado, abrirmos nosso espectro de pesquisa para além do eurocentrismo a que está submetido nosso sistema educacional desde a sua origem.

Pretendo ter neste estudo uma inspiração, para minhas práticas pedagógicas e também um impulso para outras pesquisas afins. E que este singelo trabalho sirva de estímulo para outros educadores pensarem na Educação como formação de indivíduos fortes, conscientes e comprometidos socialmente.

Notas

1 Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Bengali_renaissance em 12/12/2017

2 Sri Ramakrishna Paramahamsa (1836 – 1886) foi um dos mais importantes líderes religiosos hindus e uma figura bastante influente na Renascença Bengali do século XIX. (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ramakrishna em 01/12/2017)

3 fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3digo_de_Manu em 29/11/2017.

4 As mulheres devem ser colocadas em condições de resolver seus próprios problemas à sua maneira. Nossas mulheres indianas são tão capazes de fazê-lo como qualquer um no mundo.

5 Encontre o Raja de Ramnad e outros de vez em quando e impulsione-os a simpatizarem com as massas da Índia. Diga a eles como estão pendurados nos pescoços dos pobres, e que não poderão ser chamados de homens se não tentarem levantá-los. (…) Um carregador ferroviário aqui é melhor educado que muitos dos seus jovens e que a maioria de seus príncipes. Toda mulher americana é de longe melhor educada do que se pode conceber da maioria das mulheres hindus. Por quê não podemos ter a mesma educação? Nós devemos. (http://www.vivekananda.net/KnownLetters/1893America.html em 27/11/2017)

6 Educação é a manifestação da perfeição já existente no Homem.

7 Você não pode ensinar uma criança mais do que você pode cultivar uma planta. A planta desenvolvesua própria natureza. A criança também se ensina. Mas você pode ajudá-la a avançar à sua maneira. (…) Você pode tirar os obstáculos, e o conhecimento virá à tona pela sua própria natureza. (…) O professor estraga tudo pensando que ele está ensinando. Dentro do homem está todo o conhecimento, e isto requer apenas um despertar, e esse é o trabalho do professor. Nós temos que fazer pelos garotos somente o tanto para que eles possam aprender a aplicar seu próprio intelecto para o uso adequado de suas mãos, pernas, ouvidos e olhos.

8 Todo o conhecimento que o mundo já recebeu vem da mente; A biblioteca infinita do universo está em sua própria mente. O mundo externo é simplesmente a sugestão, a ocasião, que faz você estudar sua própria mente. A queda de uma maçã deu a sugestão a Newton, e ele estudou sua própria mente. Ele reorganizou todos os links anteriores de pensamento em sua mente e descobriu um novo elo entre eles, que chamamos de lei de gravitação. Não está na maçã nem em nada no centro da terra.

9 Avançar para a liberdade, física, mental e espiritual, e ajudar os outros a fazê-lo é o supremo prêmio do homem. Regras sociais, que impedem o desenvolvimento desta liberdade, são prejudiciais, e devem ser tomadas medidas para destruí-las rapidamente. Instituições devem ser encorajadas pelas quais os homens avançam no caminho da liberdade.

10 O professor deve lançar toda a sua força na direção da tendência do aprendiz. Sem verdadeira simpatia, nunca podemos ensinar bem. Não tente incomodar a fé de qualquer homem. Se puder, dê-lhe algo melhor, mas não destrua o que ele tem. O verdadeiro professor é aquele que pode converter-se, por assim dizer, em mil pessoas, em um instante. O verdadeiro professor é aquele que pode imediatamente atingir o nível do aluno e transferir sua alma para a alma do aluno e ver e entender através de sua mente. Tal professor realmente pode ensinar e nenhum outro.

11 Cada nação deve desenvolver um sistema de educação baseado na sua própria natureza, história ecivilização.

12 O que você pode esperar sob o domínio estrangeiro? O conquistador estrangeiro não está lá para nos fazer o bem; ele quer o dinheiro dele. Então, essas instituições educacionais de estrangeiros são simplesmente para obter uma grande quantidade de escravos úteis e práticos por um pouco de dinheiro – para formar uma série de funcionários, carteiros, operadores de telégrafo, e assim por diante. Isso é tudo.

13 Os outros quatro são: Samkhya, Nyaya, Vaisheshika e Purva Mimansa. O Coração do Yoga, TKV Desikachar, 2006, p.38.)

14 Y.S. III 1, 2. O Coração do Yoga, TKV Desikachar, 2006, p. 268, 269.

15 Existe apenas um método pelo qual se alcança o conhecimento, ele é chamado de concentração. A essência mesma da educação é a concentração da mente. (…) O astrônomo concentra os poderes de sua mente e os traz para um foco; e joga esse foco nos objetos através de seu telescópio; então as estrelas e os sistemas se aproximam e abrem seus segredos para ele. Assim o é em todos os casos: com o professor em sua cadeira, o estudante com seu livro, com todo aquele que está trabalhando para conhecer algo.

16 No estado atual do nosso corpo, estamos muito distraídos, e a mente está desperdiçando suas energias em centenas de coisas. Assim que tento invocar meus pensamentos e concentrar minha mente em qualquer objeto de conhecimento, milhares de impulsos indesejados correm para o cérebro, milhares de pensamentos se precipitam na mente e perturbam-na.

17 O sistema atual de educação está todo errado. A mente é abarrotada de fatos antes mesmo que ela aprenda a pensar.

18 Eu peço que vocês compreendam este fato, nada de bom provém de um homem que dia e noite pensa que não é ninguém. Se um homem pensa, dia e noite, que é um miserável, um fraco e um ninguém, ele não se torna nada. Se você diz: “Eu sou, Eu sou”, então você será. (…) Essa fé em si mesmos estava no coração dos nossos ancestrais. Essa fé em si mesmo foi o poder motivacional que os empurrou para a marcha da civilização. Se houve degradação, se houve imperfeição, vocês vão perceber que a degradação começou no dia em que nosso povo perdeu a fé em si mesmo.

19 E aqui o teste da verdade. Tudo o que te torna fraco, física, mental e espiritualmente, rejeite como veneno. Não há vida ali, não pode ser verdadeiro. Verdade é fortalecedora. Verdade é pureza, verdade é todo o conhecimento. A verdade precisa fortalecer, precisa iluminar, precisa ser revigorante.

REFERÊNCIAS

AVINASHILINGAM, T.S. Education – Compiled from the speeches and writings of Swami Vivekananda. Sri Ramakrishna Math, Madras, 2007.

BARAHONA, António. Poema do Senhor, Bhagavad-Guitá. Relógio D ́água, Lisboa, 1996.

DESIKACHAR, T.K.V. O Coração do Yoga. Jaboticaba, São Paulo, 2006.

ECO, Umberto. Como se faz uma tese. Perspectiva, São Paulo, 1983.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Paz e Terra, São Paulo, 1996.

PANI, S.P. & PATTNAIK, S.K. Vivekananda, Aurobindo and Gandhi on Education. Anmol Publications, New Delhi, 2006.

POUBEL, Ana. Yoga na Educação Brasileira: Integrando alunos e professores em prol do ensino. Orientadora: Letícia Teixeira. Trabalho de conclusão de curso em Licenciatura em Dança. Rio de Janeiro, Faculdade Angel Vianna, 2009/1. 33 páginas.

VIVEKANANDA, Swami. The Complete Works of Swami Vivekananda. Vol.2, vol. 3, vol.5, vol.7, vol.8. Advaita Ashrama, Kolkata, 2003.

______The Complete Works of Swami Vivekananda. Vol.1. Advaita Ashrama, Kolkata, 2013.

______Sobre Sri Ramakrishna. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Ramakrishna> Acesso em: 1/12/2017

______Sobre o Código de Manu. Disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3digo_de_Manu> Acesso em: 29/11/2017

______Sobre a Renascença Bengali. Diponível em:

<https://en.wikipedia.org/wiki/Bengali_renaissance> Acesso em: 12/12/2017

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