Sobre mestres e gurus

Share on facebook
COMPARTILHE!

Sintra, 5 de Junho de 2019.

Ultimamente tenho ouvido com mais frequência queridos alunos me chamando de mestra, mestrinha ou até guru. Me crispo toda e com humor aviso “esse papo de mestra só depois dos 70 anos”. Talvez isso tenha se tornado mais frequente pois estive mais uma vez morando na Índia e há uma crença de que quem vai à Índia se torna imbuído de conhecimento espiritual instantaneamente. Obviamente qualquer um que pare para refletir durante dois segundos, chega a conclusão de que isso não faz sentido algum – é como se todo mundo que fosse ao Brasil saísse de lá craque em futebol ou faixa preta de jiu-jitsu – mas no background mental essa lenda existe e influencia nosso olhar. Estou puxando esse papo aqui, pois fico realmente preocupada: nosso nível de exigência está tão baixo assim? Não é humildade minha, sei que sou esforçada e tenho me dedicado bastante e por isso tenho algo a compartilhar, mas isso não faz de ninguém mestre ou guru. Não dentro das tradições ortodoxas hindus, ou Darshanas.

O uso das denominações de mestre ou guru é muito comum na Índia, usado para professores de quaisquer disciplinas: artes, matemática, gramática. Tive um professor de Hindi que fazia questão que o tratássemos por guruji. Em várias partes do mundo, tratamos nossos professores escolares e universitários por mestres. E há ainda os mestres por títulos acadêmicos. Okay. Mas no caso do Yoga ou outras disciplinas que tratam do caminho de autodescoberta, precisamos ser mais cautelosos e MUITO mais exigentes com o uso dessas denominações.

Professor já é um título bom o suficiente, desde que se estabeleça uma relação de respeito, troca e sinceridade entre professor e aluno, em via de mão dupla, sempre! E mesmo assim já estamos sendo promovidos a um nível muito elevado quando somos chamados de professores de yoga; espia aqui as qualificações e atribuições trazidas por Nathamuni, no Yoga Rahasya:

Aquele que é instruído, que reflete e que tem autocontrole, depois de examinar e analisar o tempo, o lugar, a idade, a ocupação e a força do aluno, adapta muito adequadamente o ensino de yoga (às necessidades daquele aluno).

Swami Vivekananda também nos estimula a observar constantemente nosso compromisso com a relação de ensino-aprendizagem com uma afirmação eloquente sobre quem é capaz de estar na posição de professor:

O professor deve lançar toda a sua força na direção da tendência do aprendiz. Sem verdadeira simpatia, nunca podemos ensinar bem. Não tente incomodar a fé de qualquer homem. Se puder, dê-lhe algo melhor, mas não destrua o que ele tem. O verdadeiro professor é aquele que pode converter-se, por assim dizer, em mil pessoas, em um instante. O verdadeiro professor é aquele que pode imediatamente atingir o nível do aluno e transferir sua alma para a alma do aluno e ver e entender através de sua mente. Tal professor realmente pode ensinar e nenhum outro.

Bom, voltando ao papo de mestre e guru. Não sei o quanto vocês têm acompanhado as notícias dos últimos… hmmm… séculos, mas é uma quantidade enorme de casos de denúncias de falsos gurus, de abusadores, de aproveitadores, etc, etc. Mais recentemente, passaram a existir diversas organizações espalhadas pelo mundo para denunciar casos de abusos ligados a comunidades e instituições que se propunham, em teoria, a servirem de instrumento para o autoconhecimento, desenvolvimento espiritual ou atendimento terapêutico. Em geral, o perfil dos falsos mestres se repete, mas não vou gastar linhas aqui sobre a descrição desse perfil pois tem muitos artigos rolando na web pra quem quiser se informar. Vou falar do perfil do mestre real, e o porquê disso NÃO ser o meu caso, e nem o caso da grandissíssima maioria dos professores de yoga e terapeutas de qualquer coisa que vamos encontrar ao longo de toda a nossa vida (Exagerei, né? Mas não é exagero).

O guru ou mestre, dentro das tradições do Sanatana Dharma (e o yoga está incluído aqui), é aquele que percorreu o caminho, purificou seus instrumentos e teve a experiência direta da sua natureza espiritual. Neste percurso, ele foi orientado por alguém que já havia passado pelo mesmo processo, e este foi orientado por alguém. A esse processo de aprendizado passado de gerações de mestres a gerações de discípulos, chamamos de guru-shishya parampara. Há também casos raríssimos de pessoas que fazem esse percurso sem o acompanhamento de um mestre. Acontece que nesse processo de investigação interna, existem diversas pegadinhas e confusões. Pensa só, estamos investigando camadas profundas de nossos próprios padrões mentais, memórias e condicionamentos – mente investigando mente – daí a necessidade de uma orientação externa altamente capacitada, pois sozinho tem muito mais chance de dar ruim do que de dar bom. Imagina então alguém que achou que tinha sido bem-sucedido nesse processo, mas em realidade entendeu tudo errado, e saiu por aí guiando pessoas. Resultado, diz a Katha Upanishad: “Tolos habitando nas trevas, sábios em sua própria vaidade, e cheios de conhecimento vão, andam de um lado para o outro cambaleando para lá e para cá, como cegos guiados por cegos.

Mas as qualificações necessárias para um guru não param por aí: sua mente e seu coração devem ser absolutamente puros. Segundo as escrituras, apenas uma mente e um coração puros têm condições de ter a experiência de Deus ou de sua própria natureza divina, como preferir. E essa pureza deve ser perceptível. Não é porque alguém fala que é puro, ou fala bonito sobre a pureza, que eu vou acreditar, isso deve estar evidente em todas as palavras e ações dessa pessoa, principalmente nas ações.

Outra condição citada nas escrituras é o inegoísmo. Um guru não possui personal agenda, ou seja, não deve ensinar por qualquer motivo egoísta ou de interesse pessoal, seja dinheiro, fama, reconhecimento, nome. Mas… Porquê? Pois o guru não é apenas um professor ou instrutor de uma disciplina, ele deve transmitir uma força espiritual que lhe foi transmitida e “o único meio através do qual a força espiritual pode ser transmitida é o amor. Qualquer motivo egoísta, como o desejo de ganho ou de nome, destruirá imediatamente esse meio de transporte”, nos explica Swami Vivekananda.

E onde é que eu acho um guru desses? A pergunta é boa, mas não há um endereço ou localização geográfica que se possa indicar. Novamente as escrituras nos dão a dica: quando o interesse pelo conhecimento do Ser for tão urgente quanto a necessidade de respirar quando se está afogando, tudo será devidamente arranjado. Enquanto isso, os professores comuns, como eu e meus colegas, podemos dar uma mãozinha no processo de redução dos obstáculos que impedem a clareza mental.

Luz!

Artigos Relacionados

O que é espiritualidade?

“Espiritualidade é quando eu fecho meus olhos e encontro paz interior; Quando eu abro meus olhos, minha atitude é ´O que eu

6 thoughts on “Sobre mestres e gurus”

  1. Por isso que eu sempre te chamei de minha jovem mestra. Eu vivencio o teu amadurecimento espiritual, consciente também das tuas dificuldades. E aprendo. E essa relação desperta em mim a busca pela espiritualidade. Que nome podemos dar a isso?

    1. Relação é um bom nome, que tal? Se estivermos dispostos a estar atentos, todas as relações nos ajudarão a aprender sobre nós mesmos.

    1. Eu é que agradeço pela sua leitura.
      Acho importante que tragamos as reflexões e experiências do yoga para além do tapetinho, de forma que realmente se torne ferramenta nossa para a vida.
      Beijo

  2. Flávia Barroca

    Um ótimo artigo de defesa Ana Poubel!
    Obrigada por dividir suas experiências!!!
    Beijos

  3. Um tiro na mosca. Parabéns! Não se trata de falsa modéstia, mas de respeito às exaustivas falas de Sri Ramakrishna: “Não me chamem de Guru!” O Guru no campo espiritual precisa do ‘carimbo’ de Deus. Caso contrário, será um mero cego a guiar outros cegos. Todos cairão num buraco.

Comments are closed.