Duḥkha: Compreendendo o Sofrimento na Perspectiva do Yoga – Parte 4

(Baseado numa aula de Ana Poubel em 2023)

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Esta é a parte 4 deste artigo que teve origem numa conversa que tive com a turma do curso ‘Filosofia da Prática’ a convite da Patrícia Britto, professora de Yoga no Rio Grande do Norte. Se já não o fez, recomendo voltar lá nas partes 1, 2 e 3 antes de seguir nesta aqui.

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HĀNAM (solução) – vidya/Viveka

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Se há um problema e eu conheço a sua causa, o próximo passo é descobrir qual é a solução deste problema. Ao identificarmos a origem do nosso problema, muitas vezes percebemos que a solução já vem junto.

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A razão pela qual ofereci partes mais longas para olharmos para Heyam e Hetu – reconhecimento do problema e de sua causa – e quase nada para Hānam – a solução – é que a solução é um tanto óbvia, e em Yoga ela é buscada de forma negativa e não positiva.

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Em outras palavras, se a origem do problema do sofrimento humano é a compreensão equivocada sobre nossa própria natureza; a solução, naturalmente, está no discernimento, na correta compreensão sobre a nossa verdadeira natureza. Em se eliminando tudo aquilo que não é essencial, apenas a essência permanece.
Por isso que a palavra ‘revelação’ as vezes é usada para demonstrar esse processo.

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Assim, ta͂o simples? Sim.

Enta͂o, é fácil? Talvez, mas geralmente não.

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É como se encontrássemos uma montanha verdinha no meio de uma floresta, mas algo nos deixa com uma pulga atrás da orelha com relação àquela montanha. Ela tem uma forma diferente. Chegando mais perto, percebemos que parece ter algo por baixo daquele verde, e retirando gradualmente tudo aquilo que encobre aquela ‘montanha’ descobrimos que na verdade é uma construção muito antiga em formato de pirâmide! A pirâmide não é construída pela minha descoberta, ela é revelada pela ausência daquilo que a confundia com uma montanha.

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A isso estou chamando de caminho negativo, repito: em se eliminando tudo aquilo que não é essencial (da nossa compreensão, não é pra abandonar tudo e sair de tanga por aí, necessariamente), apenas a essência permanece.

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tasya bhūmiṣu viniyogaḥ

Sua aplicaçao se dá em etapas

Y.S. III-6

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E como se dá o desvelar gradual desse conhecimento? Método.

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UPĀYA (meio/método/veículo) – Yoga

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Descoberta a solução, caso ela não esteja imediatamente ao meu alcance, é preciso encontrar meios ou ferramentas para que a solução seja passível de ser alcançada.

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Chegamos num ponto muito fundamental da nossa jornada de entendimento, no qual nos deparamos com a formulação de que Yoga é o meio pelo qual podemos dissolver a compreensão equivocada gradualmente, de forma a estabelecer o discernimento e nos liberar da limitação gerada pelo erro de percepção anteriormente estabelecido.

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Lembremos que um dos sinônimos para a palavra Duḥkha é inquietação; e o estado de Yoga, descrito por Patañjali na sua definição no sūtra I-2 é um estado de quietude, justo o seu oposto. Ou seja, Yoga, ou esse estado de quietude mental, é um veículo (Upāya) pelo qual podemos conhecer, discernir, perceber com clareza. Sem este veículo presente, a compreensão correta não se estabelece, e a solução não é alcançada.

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E aqui está um dos principais erros de entendimento que se tem do que seja Yoga e do seu objetivo. De acordo com a literatura do Yoga, não só dos Yoga Sutras, como de toda a literatura reconhecida sobre o tema, esse estado de saúde, bem-estar, quietude e clareza mental não são os objetivos do Yoga, e nem são conquistas de natureza permanente, mas são veículos através dos quais é possível o desenvolvimento de maturidade, de discernimento, e por fim, de autoconhecimento, de conhecimento sobre si. O que em troca nos possibilita viver com mais sabedoria, evitando a criação de novos obstáculos, evitando o fortalecimento dos obstáculos já presentes, e conquistando maior liberdade das limitações.

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Ou seja, voltamos para onde começamos, quando a gente trouxe a boa notícia do sutra 16 do segundo capítulo: “O sofrimento que ainda não chegou, pode ser evitado”.

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Algumas considerações adicionais

  • Vale a pena aqui chamarmos a atenção para um par de opostos, que generaliza nossa experiência, que é sukha-duḥkha, comumente chamados de prazer e dor. Como o dia e a noite, eles se alternam à medida em que os resultados das nossas ações anteriores, somados ao estado que nossa mente está neste momento, se apresentam. Quanto mais nossas ações anteriores tiverem sido baseadas em compreensão equivocada, Kleśa, em uma dessas obstruções citadas no sūtra II-3, mas elas tenderão a manifestar suas consequências na forma de Duḥkha.

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  • Para a maioria de nós, o desenvolvimento de discernimento se dá em níveis, de forma que muitas vezes aquele que busca a clareza, acaba por, inicialmente, perceber duḥkha (sofrimento, obstrução) com mais frequência ou intensidade, pois desenvolve a sensibilidade de perceber o sofrimento ou o possível sofrimento (tema que será explicado por Patañjali no sūtra II-15). Como diz Desikachar: “O reconhecimento da confusão é uma forma de clareza”. Para aquele que busca clareza e discernimento, o sofrimento pode ser usado como uma ferramenta, um sinal amarelo, de aviso, de forma que os caminhos sejam repensados e as escolhas refeitas a fim de evitar o sinal vermelho, esta é uma primeira etapa.

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  • Da mesma maneira que olhamos para nós mesmos nos reconhecendo como um apanhado de padrões, hábitos e características, que foram repetidas tantas vezes e por tanto tempo, que foram assimiladas pelo entendimento como sendo definidoras de quem somos; também olhamos para o mundo e interagimos com ele a partir dessas histórias, e não necessariamente a partir do que o mundo ao redor nos apresenta. O sistema do Yoga, nos diz que é preciso, antes de mais nada, reconhecer o que estamos trazendo para a interação; que camadas estamos sobrepondo às relações com o outro, e com o mundo. Se não interagimos de forma isenta (e um passo fundamental é perceber que não o fazemos), que nos fique claro o que estamos trazendo pro jogo. O estudo desses mapas serve para aprendermos a identificar esses filtros de percepção e interação. Este é o método do Sāṁkhya-Yoga.

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Sinto que esse artigo não tem perspectiva de um fim (mas vou finalizar por aqui) pois ele trata de assuntos e desenvolvimentos de uma vida inteira e é um tema de centralidade para o caminho de orientação individual em Yoga. Acredito que através dessa pequena amostra, dá pra ter uma ideia do porquê um caminho cuidadoso, gradual, no tempo de cada um e bem acompanhado se faz necessário.

Que nossa jornada seja proveitosa!

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Imagem: E essa aí no fundo, uma montanha ou uma pirâmide? (Derisanamcope, Tamil Nadu – 2016)

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