“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
.
O médico e o professor, por exemplo, ao final da sua formação acadêmica fazem um juramento. No caso do médico, seu juramento envolve afirmar seu compromisso com a honestidade, a caridade, a confidencialidade e a aplicação da medicina para o bem do paciente. Na formação pedagógica, o juramento gira em torno da afirmação do compromisso do professor com a ética, a transformação social e com a educação de qualidade.
.
O juramento ao final do curso é um símbolo, que expressa princípios nos quais a prática daquele ofício se baseia. O fazer daquele ofício, ou seja, sua técnica, método ou modo de informar, deve ser sustentado por esses princípios. Os princípios são a fonte do método; e o método nasce, se mantém e se transforma para servir àqueles princípios.
.
Naturalmente, os princípios vão expressar uma visão de mundo: que engloba um modo de entender o que é a vida, como se sustenta uma organização social sadia e como se dá a relação entre os elementos envolvidos naquele ofício e que se encontram inseridos na vida e na organização social.
.
No caso do Yoga, os elementos principais envolvidos no ofício são os sistemas corpo-mente (e algo mais) dos indivíduos. Então, debruçar-se sobre como este sistema funciona e interage com a vida e com a organização social na qual se insere é um ponto crucial.
.
Para isso, Patañjali organiza um tratado que explicita um meio pelo qual podemos desenvolver este conhecimento: Anuśāsanam. Que resumidamente podemos dizer que neste contexto é o ensinamento baseado na experiência dos que vieram antes, que é transmitido de professor para aluno, de geração em geração; e que deve ser comprovado pela própria experiência daquele que o recebe.
.
Todas as partes dessa síntese que acabei de fazer sobre o termo Anuśāsanam contam, nenhuma delas pode ser descartada. Portanto, recapitulo: (1) ensinamento baseado na experiência dos que vieram antes, (2) que é transmitido de professor para aluno, (3) de geração em geração; (4!!!) e que deve ser comprovado pela própria experiência daquele que o recebe.
.
Podemos entender disso, que quando estamos adquirindo conhecimento sobre as bases, os princípios, e as metodologias, podemos chamar este momento de educação, estudo ou instrução em Yoga; e que quando levamos esta instrução para nossa digestão, reflexão e aplicação cotidiana, chamamos este momento de prática de Yoga.
.
Então, a prática de Yoga se dá quando usamos os elementos trazidos durante a instrução/estudo para o nosso dia-a-dia através de observação de tendências, percepção de sintomas, análise de possíveis causas, investigação de meios de resolução de conflitos/questões e escolha de ferramentas adequadas; e através da aplicação de metodologias e técnicas para interferências específicas no sistema corpo-mente.
.
Ou seja, instrução sem prática é como ser um exímio comandante de um navio que fica ancorado no cais; e prática sem instrução é como atravessar um oceano sem instrumentos de navegação.
.
“Navegar é preciso, viver não é preciso”, mas não é necessário manter uma jornada ignorante.
.
________________________________________________________________________________________________________________________
Por Ana Poubel, Abril 2026
.
.
Imagem: Tirada pelo Daniel ou por mim, acho que em 2010, ou 2011. Na cidade onde adoraria passar meus últimos dias, Kashi.






