Puruṣārthas: um mapa das buscas humanas – parte 1 

Todos nós buscamos alguma coisa.  

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Alguns se dedicam mais intensamente na busca do entretenimento, outros empenham boa parte de seus esforços na direção de um futuro próspero para a sua família, há quem mergulhe em ações que visam o bem-estar social, e há ainda aqueles que buscam uma liberdade interna que não depende das circunstâncias da vida.  

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Estes ímpetos humanos tomam formas tão vastamente variadas que nos dão a impressão de serem infinitas as buscas ou de serem objetivos muito distintos. Porém, a tradição de observação e pensamento indiana observou esses movimentos de busca com atenção e os reuniu em um modelo conhecido como puruṣārtha, ou mapa das buscas humanas, que é condensado em apenas 4 elementos.  

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Sua origem remonta aos Vedas, e seu desenvolvimento aparece de forma bastante interessante nos Itihasas ou épicos, dos quais os mais importantes são o Mahābhārata e o Rāmāyaṇa. 

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Trata-se, antes de tudo, de um esquema descritivo, e não prescritivo. Ou seja, este mapa reconhece um fato antropológico: buscamos algo e esse algo pode ser compreendido a partir de quatro grandes categorias: 

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  • Artha – sustentação material; 
  • Kāma – prazer; 
  • Dharma – virtude; 
  • Mokṣa – libertação das limitações. 

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Podemos olhar para este mapa a partir de uma progressão de interesses bastante, vamos dizer, instintiva ou visceral, daquilo que é mais natural (prākṛta) para aquilo que exige maior cultivo de si (saṃskṛta), como na sequência apresentada acima. O mundo animal nos oferece exemplos claros de que, antes de mais nada, a existência material deve ser preservada, e artha é essa busca por aquilo que nos sustenta materialmente, mesmo que apenas no nível da sobrevivência. Para todas as outras buscas, afinal, é preciso antes estar vivo!  

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As margens de um rio 

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Uma forma que considero bastante interessante de compreender a relação entre os quatro puruṣārthas à luz do sistema de pensamento e ação do Yoga, é imaginar Dharma e Mokṣa como as margens de um rio, que ao oferecerem um contorno permitem que entre essas duas margens corra contínua e coerentemente o fluxo das atividades cotidianas relacionadas a Artha e Kāma. 

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Em outras palavras, o discernimento acerca da natureza relacional da vida (Dharma) e a compreensão da natureza intrínseca de cada ser (Mokṣa) tornam-se os elementos que orientam a maneira mais respeitosa de adquirir prosperidade (Artha) e desfrutar dos prazeres (Kāma). É nessa perspectiva que abordaremos os puruṣārthas, conforme ilustra a imagem a seguir. 

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Naturalmente, conduzir-se no dia a dia à luz de tais discernimentos trata-se de um padrão de comportamento e de estilo de vida bastante elevado, cujo cultivo provavelmente exige tempo, empenho e amadurecimento. Não se espera, portanto, que um indivíduo ainda imaturo possua espontaneamente essa amplitude de percepção e destreza na ação. 

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Por isso, esses modos de viver são, idealmente, transmitidos pelas tradições familiares, culturais, sapienciais e religiosas de cada lugar e época. É por meio da vida em sociedade que o indivíduo recebe, ou receberia, esse aprendizado inicialmente. Até que possa crescer, amadurecer e compreender, em si e por si, o caminho para o seu próprio florescimento pleno e, simultaneamente, respeitar e proteger a possibilidade de florescimento dos demais e do meio ao seu redor.

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O Mānava Dharmaśāstra, famoso compêndio de normas sociais desenvolvido entre o séc I a.C e II d.C, começa seu segundo capítulo da seguinte forma: 

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‘Aprenda aquele Dharma

que sempre foi seguido e sancionado

pelo coração (consciência interior) dos eruditos (aqueles que sabem)

e dos bons (aqueles que vivem de acordo com o que sabem),

que estão livres de atração e repulsa

(aqueles que não são guiados por seus impulsos primários)’.

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No processo do Yoga, trabalhamos no sentido de desenvolver honestidade e clareza sobre aquilo que realmente estamos buscando. Esse pequeno mapa pode auxiliar na identificação de nossas prioridades e lançar luz sobre o modo como estamos procurando realizá-las. Ao mesmo tempo, ele nos convida a refletir sobre as bases culturais e comunitárias que nos sustentaram — ou cuja ausência marcou nosso processo de amadurecimento físico, emocional e cognitivo — e, em seguida, também nos fazer refletir sobre quais as bases que estamos oferecendo às pessoas ao nosso redor e às próximas gerações. 

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(continua no próximo post) 

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– Oi, sou a Ana e este artigo deriva de conversas que tive com alunos com os quais estudo em encontros de um pra um. 

Foto: Rios Amazônicos por Margi Moss/Brasil das Aguas

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