No artigo anterior, apresentamos os puruṣārthas como um pequeno mapa das buscas humanas. Falamos de Artha, Kāma, Dharma e Mokṣa e usamos a imagem das margens de um rio: entre elas corre grande parte das atividades cotidianas por meio das quais buscamos manter a vida e desfrutá-la. Uma dessas margens é Dharma.
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Mas o que significa Dharma?
Há uma expressão italiana razoavelmente antiga que exprime muito bem como me sinto quando vou pisar no terreno do conceito de Dharma. O ditado diz: Traduttore, traditore, que em nossa língua ficaria algo como “tradutor, traidor”, ou ainda, “traduzir é trair”. E quando estamos lidando com a palavra Dharma, sinto a necessidade de dar alguns passos atrás e reconhecer humildemente que talvez esta seja uma das palavras mais difíceis de traduzir dentre as que encontramos nas tradições indianas.
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Virtude, justiça, valores éticos, conduta adequada, responsabilidade. Todas essas palavras conseguem traduzir algum aspecto de Dharma, mas nenhuma delas parece suficiente para dar conta de tudo aquilo que o termo pode expressar. Uma maneira que considero apropriada para nos aproximarmos deste termo é pensar em Dharma como um modo de vida virtuoso, que está em sintonia com a ordem que faz a vida possível.
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Apesar de apropriado, ainda assim parece continuar amplo demais para uma tradução de uma palavra. Mas tem um bocado de coisa aqui que não consigo deixar de lado, por mais que tente. Vamos lá?
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Modo de vida que está em sintonia com a ordem que faz a vida possível
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Quando digo modo de vida, estou apontando para a ação. Para a maneira como agimos no mundo, no cotidiano, nas pequenas e grandes relações que estabelecemos. E quando digo que esse modo de vida está em sintonia, não quero sugerir uma condição de harmonia perfeita que alguém simplesmente alcança e pronto, mas uma direção: o esforço de reconhecer a realidade da qual fazemos parte e buscar algum alinhamento com ela. E o que pretendo dizer com esta sintonia com a ordem que faz a vida possível… bom, aí fica um pouco mais complicado falar rápido e é preciso aqui introduzir uma outra palavra bastante antiga: ṛta.
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Ordem?
Ṛta é outra dessas palavras que perdem alguma coisa quando tentamos encaixá-la em uma única tradução. “Ordem”, “verdade”, “ordem verdadeira”, “regularidade ritmada” são aproximações possíveis. Para o uso que estamos fazendo aqui, podemos compreendê-la como uma coerência que permite que as diferentes partes da realidade existam, se relacionem e continuem funcionando como um todo. Esta formulação já é uma tentativa de síntese interpretativa, não uma definição de dicionário para ṛta. Seu sentido vai aparecendo pelo modo como a palavra é utilizada nos textos védicos.
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Um pequeno hino do Ṛgveda é particularmente bonito para perceber isso. Ele começa dizendo, numa tradução aproximada:
“Ṛta e Satya nasceram do calor do esforço intencional universal, Tapas.”
Ṛgveda 10.190.1.
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E o hino continua: depois surgem a noite e o oceano; do oceano surge o ano, que ordena dias e noites; e, finalmente, são estabelecidos o Sol e a Lua, o céu, a terra e o espaço entre ambos. Ou seja, ṛta aparece justamente dentro de uma narrativa (analógica (!), vale a pena lembrar) sobre o surgimento de um cosmos que passa a possuir ritmo, distinções, posições e regularidade.
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Isso nos ajuda a entender por que simplesmente traduzir ṛta como uma “ordem” ou como uma “verdade” seria insuficiente, em especial para leitores de nossa cultura que tendem a logo se apressar em pensar que esses termos têm a pretensão de carimbar algo de natureza cristalizadamente absoluta. A palavra ṛta alcança um campo que busca expressar o movimento dos dias e das noites, o curso do tempo, a ordem ritual e a ação humana dentro de uma realidade que não é formada por partes completamente independentes umas das outras.
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E talvez possamos tornar essa ideia um pouco menos abstrata, de novo nos valendo das belas analogias desse texto, recorrendo a uma das imagens mais poderosas do Ṛgveda.
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No Puruṣa Sūkta, o universo é apresentado através da imagem de um Ser cósmico de dimensões inimagináveis. O hino começa descrevendo-o poeticamente como possuindo mil cabeças, mil olhos e mil pés. A imagem vai se desenvolvendo como um grande mito de origem. Os deuses realizam um ritual no qual este grande Ser cósmico é a oferenda e, a partir dessa totalidade, as diferentes partes do mundo passam a existir. O hino diz que de sua mente surgiu a Lua; de seu olho, o Sol; de sua boca, Indra e Agni; de sua respiração, Vāyu. Depois, de sua cabeça é formado o céu, de seus pés a terra, de seu umbigo o espaço intermediário e de seus ouvidos as direções.
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Não precisamos tomar essa descrição como se fosse uma teoria científica antiga sobre a origem do universo. Ela funciona muito melhor, para nossa conversa, como uma imagem da totalidade, de suas distinções e coerência internas:
O olho não é o pé.
A cabeça não é a respiração.
O Sol não é a Lua.
Cada parte é diferente, mas todas existem dentro de uma mesma totalidade.
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É nesse sentido que gosto da imagem de um imenso organismo universal. Não porque o Ṛgveda diga literalmente “o universo é um organismo” ou porque ṛta e esse Ser cósmico do mito sejam o mesmo conceito. Não são. Mas o Puruṣa Sūkta nos oferece uma maneira muito concreta de imaginar uma realidade em que diferença e unidade coexistem: cada parte possui sua particularidade e, ao mesmo tempo, participa de algo maior do que ela.
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E essa volta poética toda nos traz de volta ao ponto em que podemos, espero que com mais clareza, dizer que Ṛta e Dharma pertencem a uma longa investigação sobre aquilo que permite que uma realidade composta de partes diferentes permaneça ordenada, sustentável e coerente.
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E é justamente aí que voltamos à nossa vida cotidiana.
Se dependemos de uma rede enorme de relações — de outras pessoas, das gerações que vieram antes, dos animais, das plantas, da água, do solo, do clima — então nossas ações nunca acontecem completamente isoladas. E também eu nunca deixo de pertencer ao todo, por mais que minha mente me diga isso em momentos de oscilação de humor.
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Por isso, quando digo que Dharma é um modo de vida que busca estar em sintonia com ṛta, estou usando uma formulação pedagógica para dizer que Dharma pode ser pensado como a tentativa de agir no interior desse grande organismo sem perder completamente de vista a ordem de relações que torna nossa própria existência possível.
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Talvez possamos dizer de maneira ainda mais simples que ṛta aponta para uma ordem que reconhecemos; e dharma começa quando tentamos participar dela através da maneira como vivemos.
E isso nunca diz respeito apenas à minha vida.
Nem somente ao que é conveniente para mim agora, neste dado momento.
Dharma é aquela atitude que é benéfica para mim, para o outro e para o meio a longo prazo.
É aquela atitude que nos preserva num sentido profundo.
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(continua no próximo post)
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Oi, sou a Ana e este artigo deriva de conversas que tive com alunos com os quais estudo em encontros de um pra um.
Foto: Apollomapping






