Este artigo, que foi apresentado aqui nesta página em 2 partes, foi publicado originalmente por KYM Darśanam em Agosto de 1995. Nele, TKV Desikachar fala sobre ‘Śraddhā à luz do Yoga Sūtra’ para uma audiência presente no Krishnamacharya Yoga Mandiram, em Chennai, sul da Índia.
.
Pergunta 1:
Śraddhā na direção escolhida é alcançada por meio da razão?
Resposta de TKV Desikachar:
Deve haver lógica, mas mais do que lógica, deve haver sentimento.
Esse sentimento é difícil de explicar. O sentimento é por uma ideia, uma atividade ou uma pessoa. Através dele, a pessoa se convence de que pode confiar naquilo e segue a direção que esse sentimento indica, com entusiasmo.
Nos tempos antigos, Śraddhā era a base para o casamento e a escolha do parceiro.
Há um risco envolvido, assim como há em toda decisão que tomamos. Mas quanto maior for Śraddhā, menor é o risco.
Portanto, eu não equipararia Śraddhā à lógica. A lógica pode fazer parte do processo de tomada de decisão, mas não é Śraddhā. Śraddhā é um sentimento de que “isto é o melhor para mim”. Esse sentimento pode surgir na pessoa a qualquer momento e pode até resultar em uma mudança total de direção.
Algo semelhante aconteceu na minha decisão de aprender com meu pai. Até aquele momento, eu nunca havia demonstrado interesse em aprender com ele. Eu não estava interessado em religião, rituais ou filosofia e cultura indianas. Eu era formado em engenharia e tinha uma carreira promissora pela frente.
Mas um dia, vi algo que abriu meus olhos para o fato de que ele possuía algumas capacidades extraordinárias, e isso me inspirou a aprender com ele.
.
Pergunta 2:
Você conhece a história de um estrangeiro que veio à Índia, estudou o Vaiṣṇavismo e até se tornou um Vaiṣṇava, adotando todas as suas práticas fielmente. No entanto, alguns anos depois, ele abandonou isso para seguir outra tradição indiana. Existe alguma falha nisso ou é necessário se aprofundar em uma direção escolhida antes de perceber que ela não é adequada para si mesmo?
Resposta de TKV Desikachar:
Aqui estamos falando de alguém que está buscando algo sem saber exatamente o que está procurando; e também buscando sem examinar suas próprias raízes.
Hoje, no Ocidente, as pessoas frequentemente rejeitam suas raízes. Elas têm suas razões para isso. Ao mesmo tempo, sentem que não podem ser “nada”. Elas precisam de algum apoio espiritual e, por isso, vêm ao Oriente. Elas se sentem atraídas por uma das muitas tradições que encontram. Aqui há Rāga (apego). Isso não é Śraddhā.
Quando a mente é instável e dominada por Rāga (apego) e Dveṣa (aversão), ela seguirá aquilo que a atrai até que algo diferente pareça mais atraente.
Há um antigo ditado:
avyavasthita cittānām prasādo ‘pi bhayankaraḥ
(“Para pessoas de mente instável, até mesmo a presença de Deus pode ser perturbadora.”)
Eu disse que Śraddhā é um sentimento. Mas esse sentimento não deve se basear na excitação, e sim em Prasanna, um estado de calma e tranquilidade.
.
Pergunta 3:
A ausência de progresso necessariamente indica ausência de Śraddhā?
Resposta de TKV Desikachar:
Sim. Como diria Jiddu Krishnamurti:
“Se a pessoa está com fome, ela encontrará comida.
Se ela não encontrou comida, é porque não está com fome o suficiente.”
Śraddhā é a fonte da motivação. Se uma pessoa não progrediu no que se propôs a fazer, significa que sua motivação é fraca e que Śraddhā por trás dessa motivação também é fraca.
.
Pergunta 4:
O Yoga Sūtra trata da mente. Śraddhā é algo além da mente. Qual é o efeito da Śraddhā na mente?
Resposta de TKV Desikachar:
Quanto maior for Śraddhā, mais estável é a mente.
Śraddhā automaticamente gera um estado mental que permanece firme mesmo quando provocado intensamente. Assim, se eu quiser alcançar um estado mental chamado Yoga, tudo o que é necessário é Śraddhā.
Para alcançar o estado de Citta Vṛtti Nirodha, ou controle das flutuações mentais, existem dois caminhos:
- Ser alguém que já nasce com uma mente que, por si só, sem esforço consciente, evolui para esse estado.
- Seguir o Upāya Pratyaya, onde a pessoa conscientemente se esforça e segue certas práticas.
O primeiro passo desse processo é Śraddhā.
Tudo o que fortalece Śraddhā — a associação com o professor, o ambiente — garantirá progresso no Yoga. E tudo o que enfraquece Śraddhā — como Rāga, Dveṣa, Abhiniveśa (apego ao medo da morte) — afastará a pessoa do estado de Citta Vṛtti Nirodha.
É comum que alguém queira aprender e procure um professor. No entanto, ao se decepcionar com as oscilações de humor do professor, a pessoa perde o interesse e desiste. Isso revela que Śraddhā é fraca, que se torna ainda mais fraca pela incapacidade de distinguir entre a pessoa e seu ensinamento.
Os mestres antigos, portanto, costumavam testar Śraddhā de um estudante colocando obstáculos no caminho, sendo indiferentes às suas aspirações e atribuindo-lhe tarefas muito diferentes daquelas que ele queria aprender. Somente quando estavam certos da força de Śraddhā é que começavam o ensinamento. Pois, sem essa base, nenhum progresso poderia ser feito.
.
Pergunta 5:
Quando uma pessoa começa algo com Śraddhā, com convicção, por que isso frequentemente se dissipa?
Resposta de TKV Desikachar:
Porque Śraddhā influencia a mente de dentro para fora. Mas a mente também precisa interagir constantemente com o mundo externo.
No decorrer dessas interações, a mente frequentemente entra em contato com situações que evocam respostas contrárias à convicção original. Quando Śraddhā, ou convicção, não é forte o suficiente, a mente seguirá a resposta contrária.
Com o tempo, a convicção original pode até ser esquecida.
.
Pergunta 6:
O Yoga Sūtra oferece muitas técnicas para disciplinar a mente. Mas Śraddhā é algo além da mente. Como o Yoga ajuda a desenvolver Śraddhā?
Resposta de TKV Desikachar:
Śraddhā dará vida a todos os meios apresentados no Yoga Sūtra.
Quanto maior Śraddhā, mais significado há nas técnicas como Āsana, Prāṇāyāma, Dhyānam, Bhāvana e todas as outras. Sem Śraddhā, essas técnicas têm pouco efeito no estado mental e no progresso rumo ao estado de Citta Vṛtti Nirodha.
No entanto, às vezes, alguns pequenos benefícios que obtemos através da prática de Āsana ou Prāṇāyāma podem despertar Śraddhā dentro de nós.
Śraddhā está dentro de cada um de nós, mas está encoberta. Pode ser qualquer experiência que a descubra.
Uma vez que Śraddhā esteja presente, ela pode ser fortalecida ao se perceber, por si mesmo, os benefícios da prática ou pela validação das palavras do professor por meio da própria experiência.
Por exemplo, quando meu pai dizia que uma determinada prática de Prāṇāyāma reduziria meu pulso ou que outra prática o aceleraria, eu praticava e constatava que meu pulso realmente ficava mais lento ou mais rápido. Isso fortalecia minha convicção de que ele era um professor autêntico e sabia o que estava dizendo.
.
Pergunta 7:
T. Krishnamacharya também interpretou Śraddhā como Ahaṃ Graha Upāsana, uma meditação sobre a verdadeira natureza do Eu. Pode-se dizer que Smṛti é a memória desse verdadeiro Eu, o Aham que T. Krishnamacharya mencionou?
Resposta de TKV Desikachar:
Aqui, eu consideraria que Smṛti é a memória do Upadeśa (ensinamento).
Vamos considerar o caso de uma pessoa que deseja praticar Aham Upāsana. Essa pessoa não tem experiência direta de Aham. Isso está além da mente. Ao mesmo tempo, ela deseja começar de algum ponto. O que essa pessoa deve fazer?
Ela vai a um mestre que lhe dará um procedimento apropriado. O mestre dirá por onde começar e o que fazer. A pessoa começará com coisas que já conhece e entende. Gradualmente, passo a passo, o mestre a conduzirá para níveis mais profundos de autocompreensão até que, finalmente, ela tenha contato com o verdadeiro Aham.
Um belo exemplo dessa progressão é encontrado no Bhṛguvallī do Taittirīya Upaniṣad, onde, em resposta à pergunta do estudante “Quem sou eu?”, o mestre inicia o aluno com a meditação:
“Aham Annam” (Eu sou alimento).
O aluno medita e percebe que essa não é toda a verdade. Ele então é orientado a meditar em:
“Aham Prāṇam” (Eu sou o sopro vital).
Ele medita e percebe que isso também não é inteiramente verdadeiro. O mestre então o conduz a meditar em aspectos cada vez mais sutis do Eu, até que finalmente ele realize a verdade.
Em cada estágio, o estudante medita sobre o que o mestre o instruiu a fazer. Assim, Smṛti deve ser a memória do ensinamento (Upadeśa). Ela não pode ser a memória de Aham desde o início.
No começo, a pessoa está muito distante do verdadeiro Aham, e a meditação sobre ele seria apenas uma construção mental imaginária que poderia não ter relação alguma com a verdadeira essência de Aham, podendo inclusive gerar consequências negativas.
.
Pergunta 8:
O Svadharma da mãe é cuidar de seus filhos. E ela faz isso com Śraddhā, um profundo instinto de amor e proteção. Podemos, portanto, dizer que Śraddhā nos dirá onde está nosso Svadharma?
Resposta de TKV Desikachar:
Há uma relação mútua entre Svadharma e Śraddhā. Cada um influencia o outro.
Quando uma pessoa está clara sobre seu Svadharma e age de acordo com ele, Śraddhā é fortalecida. Por outro lado, é Śraddhā que revelará o Svadharma de uma pessoa.
.
.
Na imagem: Encontro entre professor e aluno. Aquarela de autor desconhecido, Punjab Hills, India, 1740.